logo

A Construção da Autonomia na Criança

line

Aconteceu no dia 9 de abril, no Anabá, num ensolarado sábado de outono, uma palestra com a pedagoga Taisa Bourguignon.

Em pauta:  A Construção da Autonomia na Criança. Quem trocou a manhã de sol pelo evento saiu da nossa querida escola caminhando nas nuvens e querendo aprofundar-se ainda mais na temática. Tentaremos alinhavar alguns retalhos do que foi tecido no bate-papo com a Taisa.

O desenvolvimento que ocorre com a criança no primeiro ano de vida é um acontecimento único. Crescimento tão grande não vai ocorrer nunca mais em nenhuma outra fase da vida do ser humano. Essa evolução depende muito do estímulo recebido pela criança. Cada pessoa nasce com muitas possibilidades, mas essas possibilidades estão latentes; o que a pessoa vai desenvolver ou não depende em grande parte do meio em que ela vive e das oportunidades que tiver. Se não lhe é dada oportunidades, se a protegemos em demasia, o seu desenvolvimento pode ser afetado.

Se diante do esforço do bebê, ao arrastar, por exemplo, o adulto lê esse esforço como um sofrimento e leva o objeto até ele, desde muito pequena a criança perceberá que não precisa se esforçar para atingir um objetivo, basta fazer “caras e bocas”.
Tudo que acontece nesse primeiro ano de vida é determinante para toda a sua vida. Ao longo de todo o primeiro setênio a criança vai aprendendo e apreendendo com o que vivencia, muito mais do que com o que é verbalizado.

Diferentemente dos animais, onde cada espécie segue a um padrão de comportamento básico, não existe ser humano igual a outro. Há características e comportamentos pertinentes a cada idade, mas o que prevalece é a individualidade de cada um.

Como saber se o desenvolvimento do seu filho está dentro do esperado para a idade? Na maioria das vezes não conseguimos olhar e avaliar nossos filhos da mesma maneira que fazemos com os filhos “dos outros”. Os defeitos dos filhos “do vizinho” são bem mais fáceis de apontar. Para os nossos, ficam os “panos quentes”. Felizmente, quando apontamos o dedo para o outro, há três outros dedos, ainda que ocultos, apontando para nós mesmos.
A melhor ferramenta para equilibrar a balança é criar o hábito da observação. Ao olhar seu filho como se fosse o do vizinho podemos ver que o que ao meu ver é “bom” para o filho dele, será bom para o meu também.

Uma vez que a autonomia da criança está ligada à maturidade e ao meio (oportunidade), outro fator que pode ser negativo na construção dessa autonomia é a tendência atual de dar tudo muito pronto para as crianças. Como atualmente, na maioria das famílias, tanto o pai como a mãe trabalham fora de casa, observamos que muitas vezes os pais se sentem culpados pelo tempo menor dedicado à família e tendem a ceder a todos os apelos dos pequenos.

Existe também uma dificuldade em estabelecer os limites e dizer não, quando necessário. A falta de tempo e a correria acabam levando muitos pais a apelar para “babás eletrônicas”, como a televisão, o computador e videogames.

Ouvir histórias ajuda muito no desenvolvimento da criatividade, já a TV e o livro muito pronto (tipo “prato feito”) não trazem esses benefícios. Por que as crianças pequenas pedem para que o adulto conte muitas vezes a mesma história? Contar várias vezes a mesma história funciona como pintar um quadro: a cada vez que você a repete a criança vai dando mais pinceladas até que finalmente ele esteja pronto. Aí você pode passar para outro quadro, ou, esse caso, outra história.

Mas e a liberdade? O bebê nasce ou não livre?
De acordo com Taisa, a liberdade é algo que se conquista com o tempo. O bebê nasce refém dos reflexos, que os ajudam a sobreviver de início e que irão desaparecendo com o tempo. Ao nascer, ele precisa que alguém o atenda, que o alimente, enfim, que supra suas necessidades. Apesar de já trazermos muitas de nossas habilidades latentes, alguém precisa nos ensinar a sermos o que somos.

Autonomia e liberdade

Aos poucos, de acordo com a maturidade e a autonomia que a criança vai demonstrando ter, os adultos vão “soltando as rédeas” da liberdade. Quando damos ao filho a liberdade de fazer uma determinada coisa, se ele responder bem, com responsabilidade, é um sinal de que podermos “soltá-lo” um pouco mais. Se ocorrer o contrário, é um sinal de que devemos recuar. A liberdade já está latente, mas precisa ser conquistada.
Existem vários tipos de liberdade. Nos três primeiros anos de vida a criança conquista a liberdade de andar, de falar e gradativamente a do pensar.

A pedagoga deu também algumas dicas sobre como lidar com alguns comportamentos típicos da criança.

Se a criança parece não estar te ouvindo – e você precisa pedir a mesma coisa inúmeras vezes – ou até mesmo se estiver fazendo uma pirraça tão grande que a deixa fora de si, por mais difícil que seja, procure manter a calma. Mantenha o tom de voz grave, mais baixo do que é o seu tom normal. Mostre sua autoridade, sem autoritarismo. Utilize um comportamento da paz. É importantíssimo neste momento fazer a conexão olho no olho. Afinal, onde encontramos o outro senão no olhar?
O ideal é que você não peça muitas vezes a mesma coisa, mas que se aproxime da criança e faça o pedido olhando nos olhos dela, para que ela não fique com a sensação de que você fala muito, mas não age.
 
Em casos extremos, estabeleça algum castigo, mas lembre-se sempre de só falar o que você pode realmente cumprir. Para as crianças menores, não adianta dar uma penalidade muito extensa, porque daí ela nem se lembrará mais porque está “de castigo”. Não esqueça: palavras são ações.

O comportamento do adulto diante da criança deve ser equilibrado, no momento de conflitos não podemos nos igualar à criança. É muito importante também passar a mensagem de que a vida é bela, por isso é vital fazer as coisas com alegria e amor.

Envolver a criança nas tarefas da casa é um passo importante na conquista da sua autonomia. Contribuir de alguma maneira com o bem estar da família é fundamental. “Se exercito a ação, sei quanto vale uma determinada coisa”. Mas não basta que ela cuide das suas coisas. É preciso que ela faça algo pelo coletivo. Por exemplo lavar ou secar a louça usada por todos, recolher a roupa de todos no varal, cortar a grama… E, em casa, não devem existir tarefas “de meninos e de meninas”.

Nós, por outro lado, não podemos esquecer de elogiar sempre o que foi feito. Ser positivo estimula-os a querer fazer mais vezes e com mais alegria a cada dia.

A construção da autonomia não vem de graça para a criança, mas quando a família trabalha junto estimulando e falando a mesma língua, é possível contribuir para que eles cresçam seres autônomos e felizes na nossa sociedade.

Quem quiser pode contribuir com mais retalhos, porque essa colcha parece não ter fim… Esperamos, assim, que outros encontros enriquecedores como este possam nos ajudar a costurar a colcha de retalhos que é a nossa vida. Outras manhãs de sol virão.

 Valéria mãe do Gil do 4º ano