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Reflexães sobre o tempo
Monique Fachi

No primeiro congresso da "Aliança para a Infância" em Bruxelas, em outubro do ano 2000, pessoas do mundo inteiro que trabalham e se preocupam com crianças se juntaram para tentar entender o que é a infância no início deste novo milênio e qual é o seu futuro.

Assim como o meio-ambiente físico sofre agressões pela poluição da terra, da água e do ar, podemos dizer que o meio-ambiente humano no qual vivemos também está sendo poluído com fatores como a falta de tempo, o estresse, a falta de movimento, as influências da mídia, da televisão, o consumismo exacerbado, etc...

O tempo, o espaço do ser humano estão sobrecarregados e isto tem uma influência particularmente grave no desenvolvimento da criança. Foram debatidos assuntos como a violência, a tecnologia de comunicação, os maus-tratos. Mas eu queria compartilhar com vocês, nesta edição do Colibri, algumas reflexões sobre o tempo*.

A criança percebe o tempo de forma mais lenta - ela vive numa outra zona de tempo que os adultos. Ela vê o mundo de forma nova, a cada instante, com todos os sentidos abertos.
Quem observa o desenvolvimento da criança vê como cada experiência, por exemplo de movimento, precisa ser feita com profunda concentração e tranqüilidade e ser repetida inúmeras vezes, com erros e acertos. As crianças se dão este tempo: o tempo para conhecer, experimentar, repetir, ganhar confiança e adquirir uma nova habilidade. No brincar a criança está envolvida profundamente e com todos os seus sentidos no presente. A criança saudável procura naturalmente o que ela precisa para o seu desenvolvimento e isto só pode acontecer com tempo. Ela só aprende quando explora ativamente o meio-ambiente.
Muitas vezes os adultos atrapalham este processo de vivência interna do tempo da criança.
Uma pequena pesquisa feita num jardim de infância dos EUA mostrou que as últimas palavras que a maioria dos alunos escutam antes de sair de casa são: "Hurry up !" ( "Apresse-se"). A nossa sociedade tem a tendência de apressar a criança para fora da infância. Quando apressamos uma criança, por exemplo, para se vestir, calçar os sapatos, para comer, impedimos a participação dela no seu próprio processo.


E porque isto acontece?

Uma outra pesquisa nos diz que nos EUA os pais têm em média 20 minutos por dia para dedicar ao seu filho. Sabendo que as crianças americanas passam de 2 a 3 horas por dia na frente da televisão, percebemos um desiquilíbrio nesta relação.

Podemos então nos questionar: que modelo os pais são para as crianças, e que modelo a televisão oferece para elas?

A pressa, a falta de tempo, a aridez generalizada, tem conseqüências sobre o desenvolvimento das crianças que podem se manifestar em vários níveis: insatisfação, frustração, falta de concentração, desconfiança, desinteresse pelo mundo ou, se for mais grave, sinais de estresse, depressão, distúrbios do sono e da alimentação e doenças físicas..
Muitos fatores levam a uma disfunção do tempo: parece que a nossa sociedade está engatada na velocidade máxima e isto se manifesta em todos os aspectos da nossa vida: na maneira de se alimentar ( fast-food ) , na maneira de se locomover ( carros e estradas mais rápidas ) , na maneira de nos relacionar e comunicar ( telefone celular, e-mail ) e no lazer.

Atividades de alta velocidade na TV, vídeo, jogos eletrônicos levam a uma hiper-estimulação e a uma insatisfação com o presente. Perdemos a compreensão do tempo e isto se manifesta na maneira como vivemos no planeta Terra: perdemos a relação equilibrada entre exploração e regeneração dos recursos naturais.

O ser humano e o planeta Terra têm grandes capacidades de adaptação. Mas até onde, e quais conseqüências desconhecidas de nós isto poderá ter? E, principalmente, quais conseqüências isto terá nas crianças que são o futuro da humanidade?

É preciso sarar a nossa relação com o tempo. E a resposta é simples: é só com tempo. Não é só o tempo da criança que precisa ser respeitado. É o nosso também. O tempo de ter fome e de comer, o tempo de ter sono e de dormir, o tempo de sentir, ver, agir, o tempo de parar. O tempo da vida humana e o tempo da natureza.

Um tempo cheio de amor, confiança e tranqüilidade propicia as vivências que a criança precisa ter para crescer de maneira íntegra e saudável, fazendo uma coisa depois da outra, podendo errar e recomeçar. É importante que todas as atividades que a criança presencia e das quais participa, tenham um sentido, um início e um fim. A criança tem curiosidade em relação ao tempo - podemos orientá-la, falando sobre o que foi e o que será - o ontem, o hoje e o amanhã. A relação com a natureza é muito benéfica, pois nela tem a espera , o crescimento e a maturidade. Como educadores, pais ou professores, propiciamos experiências diferenciadas . A criança vai pegar o que ela precisa no momento adequado para si. Só o que ela consegue por si será verdadeiramente aprendido.


Remo Largo definiu da seguinte maneira as necessidades da criança:

1. Tempo para o desenvolvimento individual: necessidades individuais, processo de aprendizagem, prontidão
2. Tempo para vivências em comum: vida imitativa, comunicação social, linguagem
3. Tempo disponível do adulto para a criança: modelos, disponibilidade, continuidade dos cuidados, confiabilidade, coerência.


Crianças precisam de tempo:

1. Tempo para perceber e conhecer o mundo ao seu redor
2. Tempo para criar a sua própria visão de mundo
3. Tempo para sonhar os seus sonhos
4. Tempo para crescer e para - na plenitude do seu tempo - estar pronto para atuar na vida

O mais precioso que podemos dar para nossas crianças é tempo. Isto exige paciência e prontidão: estar verdadeiramente presente.

* Reflexões baseadas em trabalhos de:
Ana Tardos, diretora do Instituto para Crianças, Hungria
Sally Jenkinson, professora de jardim Waldorf, Grã Bretanha
Mary-Jane Drumond, pedagoga, Grã Bretanha
Remo Largo, pedagogo, Suiça

 

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