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Morrer Divertindo-se
Dr. Neil Postman

(Fragmentos do discurso inaugural da Feira do Livro de Frankfurt, 3 à 8 de outubro de 1984. Dr. Neil Postman é catedrático do "Média Ecology" da Universidade de N.Y. )

Tendo aceitado o honroso pedido de dirigir-lhes estas palavras terei de oferecer também algo sobre o tema central desta Feira do Livro, ou seja, "Orwell e o ano de 1984". Confio que não o tomem por completo desrespeito ou que afirmem que a escolha deste tema foi um erro, melhor dizendo, meio erro. No que se refere às democracias ocidentais, Orwell enganou-se quase por completo. E este fato óbvio conferiu àqueles que lutam pela liberdade individual um mal entendido sentimento de orgulho por aquilo que foi conseguido até agora: tinham seu olho vigilante dirigido para o ano de 1984; e ao não confirmar-se a profecia, começaram a cantar louvores a si mesmos e a seus respectivos países. E continuam fazendo-o! Mas temo que alguns de nós tenhamos esquecido que, ao lado da tenebrosa visão orwelliana, exista outra, ainda mais velha, não tão conhecida, mas igualmente angustiante. Refiro-me ao "O Admirável Mundo Novo"de Aldous Huxley.

Orwell temia que os livros fossem proibidos; Huxley tinha medo de que não houvesse razão alguma para proibi-los, porque ninguém pretenderia ler livro algum. Orwell temia que nos ocultassem a verdade; Huxley temia que a verdade se fundisse num mar de futilidades. Orwell temia que todos terminássemos num cativeiro permanente, enquanto que Huxley previa nossa degeneração numa total superficialidade. Ou seja, Orwell previa que marchando compassadamente e aprisionados, seríamos conduzidos ao ocaso, enquanto que Huxley estava convencido de que sozinhos, sem ajuda nenhuma, espontaneamente, dançaríamos até o precipício - com um sorrizinho idiota.

Em meu país, Estados Unidos, as profecias de Orwell têm pouca relevância, enquanto que as de Huxley estão a ponto de cumprir-se. E me refiro aos E.U.A porque meu país já está empenhado em conseguir o experimento mais custoso do mundo, ou seja, o de nos sincronizarmos totalmente com as distrações tecnológicas que os botões eletrônicos tornaram possíveis.

De acordo com a pesquisa de Nielsen, ano de 1983, 98% dos lares norte-americanos possui 1 televisor. Parece que em meu país a televisão é a "soma" do "Admirável Mundo Novo"de Huxley. E me antecipo em advertir que a total irrigação da nossa TV, não é uma intenção de um governo maligno, nem de um voraz Estado corporativo, pretendendo reavivar o antigo truque do pão e circo. O problema é muito mais grave e nada tem de antigo, tampouco consiste em que a TV ofereça às massas puros temas divertidos,senão trata-se muito mais de que ela apresenta todos os temas com roupagem de diversão.

Cientes de que diminui a exposição de nossa política, nossas notícias, nossa religião, nosso sistema educativo e nossa economia por meio da palavra impressa ou do discurso público, aumenta constantemente a transformação destes temas na transmissão televisada, assim como a adaptação às exigências da tela.

Se vocês necessitam de um exemplo concreto disto tudo, peço-lhes que imaginem o seguinte: nos E.U.A, digamos em 1984, um homem barrigudo não poderia ser eleito a um alto posto político: o homem gordo não fica bem na televisão, e semelhante imagem visual é muito mais importante que qualquer declaração séria que ele pudesse expor. Creiam-me, senhoras e senhores, se, por muito tempo, voces não tenham ouvido nenhuma idéia interessante dos proeminentes políticos americanos, não é porque não as tenham, senão porque as idéias são irrelevantes para o êxito político. Na época da televisão, não se trata mais se estamos ou não de acordo com o político, senão se ele, ou ela, cai bem ou cai mal à gente, pois a imagem não se verifica nem se refuta.

E o que vale para a política se aplica também para as notícias que se oferecem ao norte-americano em forma de "Show de Telenotícias", sempre com música para começar e terminar o programa. Invariavelmente, os contextos e a continuidade são sacrificados no altar da ilusão ótica. O show de telenotícias não tem mais que um sub-interesse em fornecer informação pública, o que importa é o ritmo acelarado.

Eis aí porque, hoje em dia, muitos norte-americanos preferem consumir sua instrução religiosa através da TV, em lugar de ir à igreja: é inerente a esta, a transmissão para sua comunidade de uma vivência severa e um pouco seca, nada muito divertido; a TV, ao contrário, converte a religião em uma diversão, evitando escrupulosamente lançar mão de dogmas, de terminologias, lógica, rituais, doutrinas ou tradições que possam constituir carga mental para os telespectadores; a única coisa que eles terão de aceitar é a imagem do pregador. Até o próprio Deus fica desvanecido, em segundo plano, porque não é suficientemente espetacular para a TV. No meio orientado para a imagem, Deus não faz ato de presença; a única coisa que conta é a irrecusável e carismática imagem de seu emissário, convertendo a teologia em espetáculo de variedades, atraindo o maior número possível de espectadores.

Eis aí exatamente o que fez a "Vila Sésamo", o famoso tele-show para crianças. Tanto seus criadores, como seus espectadores, já se acostumaram, sem protesto, à idéia de que não há diferença entre aprender e divertr-se.

E, se por acaso vocês ainda não se interaram, hei de informar-lhes que, no sistema de escolas públicas da Filadélfia iniciou-se uma experiência onde os alunos cantam os temas de ensino ao ritmo de música rock.

Sabido é que o mundo inteiro é um teatro. Mas que o mundo inteiro seja, além disso, uma tele-comédia, não deixa de causar surpresa, com exceção, é claro, de Aldous Huxley. Mas não nos enganemos: a televisão não se limita a ser meio de diversão, é toda uma filosofia em torno do discurso público, tão capaz de transformar toda uma cultura, como em seu tempo o foi a imprensa. Entre outros méritos a palavra impressa criou a molderna idéia de prosa, com a qual conferiu ao princípio de exposição pormenorizada uma autoridade antes não conhecida, na condução de assuntos públicos. A televisão, ao contrário, deprecia a exposição, por ser séria, conseqüente, racional e complexa. Em seu lugar, oferece uma nova modalidade de discurso público em virtude do qual tudo se faz acessível, simplista, concreto e, mais que tudo, divertido! A conseqüência disto é que os E.U.A seja a primeira cultura em perigo, literamente, de caminhar divertindo-se, para a morte. E parece que, muitas partes do mundo têm ânsias febris de acompanhar-nos nesta nefasta aventura.

Existem, pois, dois caminhos para necrotizar o espírito de uma cultura. O primeiro, o de Orwell mostra como a própria cultura se converte em cárcere; o segundo, o de Huxley, deixa que a cultura degenere na piada, no teatro frívolo. Para nós é muito mais fácil perceber o primeiro processo e nos defender dele quando os muros se aproximam: dificilmente podemos permanecer indiferentes às vozes dos Sakharov, dos Timmermann, dos Walesa; e confrontados com o mar de adversidades nos armamos com o espírito de Luther, Milton, Bacon, Voltaire, Goethe ou Jefferson. No entanto o que acontece quando não se escuta grito de angústia nenhum? Quem empunha as armas contra uma avalanche de diversões? Com quem, quando e em que tom nos queixamos quando qualquer discurso sério se dissolve em riso dissimulado? Existe, acaso, algum antídoto para uma cultura em vias de morrer, literalmente, de rir? Eu temo, senhoras e senhores, que neste assunto, nossos filósofos nos tenham deixado, até agora, desamparados.

 

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