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Anabá Informa

A puberdade e suas crises (2ª parte)
Johannes Bockemühl

O papel da sociedade e dos adultos no caminho da maturidade terrena
A puberdade como tal não é nenhuma enfermidade, os problemas aparecem por conta da civilização e também pelas falhas na educação.

Dos adultos depende que o passo do estudante em direção à adolescência seja uma crise superada de forma frutífera ou que, a partir daí, se estabeleçam determinados fundamentos patológicos. Nesta situação nós os influenciamos, não só como membros integrantes de uma sociedade, mas também como membros individuais criadores de educação, cultura e civilização. Os pais, professores e todos aqueles que, no sentido mais amplo, participam na evolução de nossas crianças, não podem se livrar facilmente da impressão de que as crises por eles vividas são pedidos de ajuda ao destino,à sociedade e a nós mesmos, pois estes jovens se dão conta de que ainda não são independentes. Eles nos perguntam sobre as experiências que recolhemos em nossa vida.

Temos a tarefa de ser mediadores ante nossos filhos e todas as crianças de nosso tempo, oferecendo-lhes alimento anímico para o futuro e para seu desenvolvimento harmônico.

Autocrítica
O auxílio que nós, como educadores, temos oferecido às nossas crianças, são ou tem sido edificantes ou destrutivos? Onde se encontra o auxílio que podemos oferecer-lhes e o que nós mesmos podemos fazer para ajudar-lhes? Aqui, o mais importante, e a base de tudo, é a forma como nós mesmos vivemos, que é a causa de que algumas crises vividas pelos jovens se convertam em enfermidade. Porém, esta também é a questão pela qual, antes de mais nada, nós podemos influenciá-los. Temos que nos identificar com a confusão e a perplexidade em que se encontram estes jovens, a fim de podermos nos tornar responsáveis frente à eles e sua situação e de aprendermos a sentir claramente as possibilidades de ajuda. Não podemos nos limitar simplesmente a apelar a instituições ou a outras pessoas especialistas que sejam capazes de conduzir os jovens à superação de uma crise.

Assim, a forma de educar é decisiva para o desenvolvimento infantil desde o primeiro dia de vida. A mãe, nos dias em que se seguem ao nascimento, tem uma finíssima sensibilidade, um "sexto sentido" com o qual percebe o que seu bebê necessita, se está faminto ou sedento, satisfeito ou cansado, se precisa deixá-lo dormir ou se pode tomá-lo nos seus braços, etc. Esta capacidade pode ser desenvolvida quando se adquire consciência a respeito; a partir disso se cria então uma certeza interna. Esta segurança nos ajuda a encontrar o caminho correto entre os riscos e dificuldades por que passamos durante o desenvolvimento e a educação das crianças. Ela não nos protege dos equívocos, os quais não devemos temer, ao contrário, ela serve para observar com autocrítica, para poder acumular experiências e aprender com elas. Graças a esta segurança se evita o medo superprotetor sobre a criança. Este o conduziria a tornar-se insegura com relação aos seus sentimentos e assim não poderia chegar a desenvolver padrões anímicos próprios. Os pais, graças à aquisição de coragem e segurança interna na educação da criança, aprendem a perceber mais sutilmente os perigos e os desvios na sua evolução, podendo confrontá-los de forma correta em vez de reprimi-los com "medo".

Amorosa firmeza
Toda firmeza flexível e amorosa nos juízos e decisões e a intenção de serem claros, por parte dos pais, nos primeiros anos de vida, formam a base para poder ajudar mais tarde as crianças nos momentos de crise e assim poder alcançar novamente a ordem interna e, com ela, a saúde da alma.

Isto faz parte de um "mundo intacto" no seio do qual toda criança deveria viver durante sua infância para poder, mais tarde, encontrar a própria segurança anímica e uma medida interna a fim de poder fazer frente a todas dificuldades da existência. Mesmo que estas condições só se cumpram em parte, existe a possibilidade de ajudar os jovens a conseguir uma nova ordem interna.

O desenvolvimento é um processo e as crises vão se preparando. Se alguém é surpreendido por elas é porque não seguiu de perto a evolução, não pôde reconhecer esta crise ou não quis se convencer de sua existência. A experiência tem mostrado que parcialidade na educação leva a um desenvolvimento doentio. Nos exemplos que se seguem veremos uma mostra do enunciado até aqui.

A Educação intelectualizante
Em geral os pais são formados academicamente, sabem muito e tentam evitar as experiências das crianças explicando-as racionalmente. Falam com elas sobre a moral, convertendo-se freqüentemente em representantes de fundamentos abstratos ( isso se faz, isso não se faz ). Por meio de explicações inteligentes, o ser humano se vê capaz de nivelar ou problematizar determinadas circunstâncias. As crianças que crescem fundamentalmente sob estas influências têm quase sempre grande dificuldade para avaliar a si mesmas e às situações da vida. Sentem-se inseguras e têm medo, pois o conhecimento teórico de uma relação não significa necessariamente a realidade. Aqui tem que aparecer a experiência no encontro com as coisas. Tais crianças estão muito adiantadas em sua capacidade de expressão, em geral são crianças precoces, porém se sentem inseguras em sua relação com os demais e ante exigências concretas, sentem medo. Mais tarde, com freqüência se desenvolve o medo frente a vida e os jovens não são capazes de dominar as demandas cotidianas da vida.

R.P. será um desses casos que nos ocupará a seguir. Ele cresceu em um ambiente como o que acabamos de descrever, excessivamente intelectual e medroso. Essa criança causava aos pais enormes dificuldades, pois estava sempre discutindo com eles, chegando até mesmo a lhes superar neste campo. Eles declaravam que a criança não atendia às suas proibições e princípios, inclusive chegava a ameaçar e se comportava de forma descarada em relação às outras pessoas. Com as crianças fazia grandes discursos, porém, em caso de perigo, saía correndo. Chegou também a receber ameaças de outras crianças e não conseguiu alcançar nenhuma relação de amizade com os companheiros de classe. Explorava cada vez mais sua inteligência para poder esclarecer sua situação vital e justificar seu comportamento. De forma progressiva começou a provocar a mais pessoas, escrevendo-lhes cartas ameaçadoras e chantageando seus amigos, advertindo-lhes que, a qualquer momento poderia se suicidar, coisa que nunca chegava a acontecer. Seu comportamento adquiriu traços terroristas, chegando a converter-se num marco da nossa sociedade: um criminoso.

A educação “carente de alma”
Nestas famílias dominam freqüentemente algumas formas ou modelos masculinos, rudes ou toscos. Vive-se com normas de comportamento rígidas, onde se vê muito acentuada a autoridade paterna. Falta compreensão ou escuta recíproca e cada um busca suas próprias vantagens. Ali encontramos julgamentos desfavoráveis, falta de interesse, menosprezo, assim como um ambiente de fundo de resignação. Uma criança que cresça em semelhante ambiente experimenta profundamente o menosprezo em relação aos demais, o que conduz a um embotamento da sua sensibilidade , chegando mesmo a fazê-lo padecer de uma terrível sensação de tédio. Na maturidade tudo isso desembocará em petrificação, frieza e brutalidade. Aqui nos chama a atenção a menina C.L. de 14 anos, a qual se identificou com um papel masculino argumentando que somente dessa maneira alguém podia fazer-se respeitar e impor. Dedicava-se a gravar numa fita cassete, de forma absolutamente fria, todas as discussões e brigas de seus pais, inclusive com agressões.

De forma cada vez mais freqüente ficava furiosa e um dia foi acusada de ter furado com uma faca numerosos pneus em um estacionamento público. Declarou que de vez em quando sentia dentro de si uma fúria tão irrefreável que sentia necessidade de descarregá-la dando golpes ou desafogando sua frustração de alguma outra forma. Nunca pôde aprender a rir ou a chorar, do que sentia nostalgia. Chegou a sentir algo parecido ao amor, que porém se converteu em sexo brutal. Já não sentia desejo de ter amigos e se apoiava nas outras meninas.

A educação com “mimos e excessiva indulgência”
Aparece freqüentemente em pessoas com elevado nível de vida e sem demasiadas exigências externas. Nestes casos, permite-se à criança todos os caprichos e atende-se à todos os seus desejos. Atua-se seguindo o princípio da satisfação e a fazemos acostumar-se a isto. Talvez a criança viva em uma família de pais e avós que demonstrem excessivos mimos e admiração e, desde o jardim de infância, tornam-se evidentes as dificuldades da criança para integrar-se com seus companheiros; "não lhe apetece". Progressivamente se observa que durante o período escolar estes jovens não suportam a menor desilusão, nem a mínima falta. Também não suportam nenhuma exigência que requeira esforço. Durante a puberdade isto conduz à negligência, à falta de iniciativa e a fortes queixas quando tem que fazer algo necessário.

Carsten P., por exemplo, desenvolveu-se em um ambiente semelhante, sempre notou em si mesmo uma imperfeição ou insuficiência anímica, não conseguia reagir nem animar-se com nada, estava descontente e insatisfeito. Está sempre reclamando e xingando e trata de se distrair com rock pesado, filmes de terror, drogas e pornografia. Quando chega em casa, vindo do colégio, e a comida ainda não está pronta, abre a geladeira e bate a porta com o pé porque as latas de coca-cola não estão no seu devido lugar. Não pode fazer frente à fascinação que as drogas exercem sobre ele. A família está chocada e ninguém sabe como enfrentar a situação.

O que eles esperam
Mostramos exemplos que revestem alguns traços típicos e revelam determinadas unilateralidades na educação que conduziram ao endurecimento anímico dos jovens.

Nossa primeira tarefa é fazer-nos receptivos da natureza freqüentemente enigmática e insegura da criança, pois algo se anuncia aos pais, educadores e professores quando a criança sugere, aos berros ou suavemente, sua vontade de desprender-se. A triste frase de um pai: "meu filho é o resultado biológico de um desafortunado ato de procriação" certamente não ajudará em nada nesse processo.

Nos primeiros anos da adolecência, os jovens esperam três coisas de nós:

1 - Que sejamos seus guias e orientadores; que nos mantenhamos inalterados e lhes assinalemos a hora da partida e a meta, que lhes aconselhemos e orientemos, porém, por favor, sem lhes dar ordens, sem pressionar e sem esperanças moralistas. Vemos freqüentemente como as dificuldades se encontram em nossas próprias metas pesoais, e que a ambição, o poder e o desejo de bem-estar não nutre a alma juvenil. Eles buscam as diretrizes, as idéias que podem dar-lhes um sentido à vida.

2 - Ouvir delicada e compreensivamente. Temos que aprender a compreender também por entre o tumulto das almas juvenis. O que significam seus confrontos cheios de ódio? Um desafio; o qual significa, por exemplo: "Tenho uma relação muito intensa contigo!" Por que isso nos tira sempre do equilíbrio? Por que nossa própria desilusão, insegurança, nossa vaidade, nosso autoritarismo são maiores que nossa capacidade de ouvir. Dessa maneira nossa relação com o jovem continua sendo como era até agora; continuamos entendendo-o muito mal.

3 - Comprovarmos a respeito do que podemos e sabemos fazer. Que comprovem à medida de nossas ações, a credibilidade de nossos motivos, a nossa autenticidades e a lógica interna das nossas ações.
As ações violentas, motivos egoístas e a falta de veracidade são obstáculos que nos impedem de poder ajudar aos jovens. Temos que ser muito conseqüentes em nossos atos: de se fazer o que se diz.

Se eles nos vêem dessa maneira -nos esforçando nas tentativas de transformação própria - então seremos como uma luz para todos os que buscam orientação em nós. Aí começa o autêntico alimento anímico. Ao contrário, nossas mentiras, ambigüidades, aspectos não resolvidos de nossa personalidade, pensamentos vagos ou confusos e ações inconseqüentes produzem graves desenganos e dissimulações. Aí se forma um autêntico arame farpado para as almas. Aquelas crianças às quais não oferecemos os cuidados e a atenção que requerem em sua necessidade de experimentar o mundo, se entregarão à complacências e sugestões ilusórias. Ver-se-ão facilmente expostas à influências anônimas, e também às manipulações do conhecimento que atuam de forma inimiga e destrutiva frente a uma vida espiritual e cristã. Então não adquirirão a capacidade de discernimento a partir da própria estabilidade anímica, da capacidade de julgamento e da capacidade de distingüir o que lhes beneficia do que lhes prejudica. Neste caso a humanização não avançará; ao contrário, teremos uma desumanização.

O que fazer?
Observando a nossa própria vida, vemos como nos deixamos dominar pela sensação de desalento, pelo desengano, violência, autoritarismo e vaidade. Se somos sinceros e nos observamos atentamente, veremos estas tendências em nós mesmos, o que revela a prisão em que vivemos. Todo homem tem algo de especial que o diferencia dos animais, algo central, muito digno e humano: a liberdade frente às exigências e tarefas que se apresentam. Ou bem nos desesperamos pelas condições, nos deixando levar, enganando-nos, ou bem buscamos a recompensa da auto-superação, do esforço, da paciência, desenvolvendo paulatinamente a cultura humana. Assim temos, por exemplo, a liberdade em buscar ajuda para chegar a um conhecimento mais profundo do homem.

1 - Assim, de início, podemos praticar talvez uma forma clara e abrangente de pensar. Se somos capazes durante um minuto ao dia de ligar conceitos de forma lógica, auto-escolhida, extraindo desse processo só o essencial, este exercício em pouco tempo, realizado de forma regular, nos fará capazes de expressar pensamentos de forma clara. Para realizar isto poderemos tomar um objeto situado diante de nós, por exemplo, um livro, e imaginaremos os passos realizados desde sua impressão até sua venda.

2 - Praticando a capacidade de amar e a imparcialidade, desenvolvendo interesses, fazendo perguntas ao cotidiano, tomando parte naquilo que as crianças estão envolvidas, percebendo silenciosamente o que eles vivenciam e escutando-os, ainda que estejam transtornados, de tal maneira que possamos chegar a ser capazes de dedicar diariamente dois minutos de atenção integral à criança. Por exemplo, deixando um tempo para nos interessar pelos deveres escolares, porém não como uma atitude crítica ou de querer corrigir, senão para poder descobrir e aprender algo novo com esse processo.

3 - Podemos praticar ações conseqüentes, quer dizer, realizar aquilo que se encontra nos limites de nossas capacidades dependendo do nosso grau de entendimento. Ainda que o façamos mal feito, é muito importante adquirir uma segurança interna. Os erros cometidos podem nos ajudar a acumular experiências decisivas. Freqüentemente, por medo de agir, nos sentimos inseguros. Por exemplo: tenho que escrever uma carta, proponho-me a escrevê-la e começo-a agora, mesmo que não tenha tempo suficiente para acabá-la.

Estes esforços, aparentemente pequenos, servirão, ainda que não pareça, de uma enorme ajuda aos jovens nos momentos de crise, ao notar que os adultos trabalham também consigo mesmos - de uma forma livre. Nós mesmos nos daremos conta de que a partir daí se pode desenvolver algo novo porque fazemos coisas que são necessárias, porém em plena liberdade, e que atuarão de forma decisiva no sentido de um modelo ou exemplo sem matizes moralizantes.

Exercícios “psicológicos”
Muitas das formas dos jovens trabalharem nos desgostam e desagradam e isso novamente dificulta a relação. Também sabemos há muito tempo que este é o ponto chave. E muitas vezes se chega aos mesmos tipos de conflitos e disputas destrutivas porque não somos capazes de desenvover serenidade e paciência. Temos que fazer o exercício de demonstrar serenidade diante de todas as manifestações de nossos jovens, sejam do tipo que for. Temos que lutar contra a agitação de nossas emoções. Podemos conseguir isto realizando uma reflexão noturna sobre a situação acontecida, mentalizando a sucessão dos acontecimentos no encontro das imagens, sem julgamento.

Talvez sejamos capazes de descobrir ao mesmo tempo algo surpreendente, o que pode aumentar nosso interesse pelo jovem, mesmo que este interesse se concentre tão somente na dificuldade - que deveremos observar com olhos de admiração, sem julgamento. Inclusive podemos avançar um passo se formos capazes de contemplar a sua forma de vestir, de tal maneira que encontremos nela algo que possa nos causar assombro, ainda que isto só sirva para que nos demos conta de que Cláudia ou Daniel passam duas horas arrumando o cabelo.

Humor e interesse
Outro aspecto nos parece bastante importante: o abrir-se ao "incrível", permitindo-o que atue sem preconceitos sobre nós, que recebamos as informações com um interesse interior,porém, permitindo instruir-nos sobre ele. Para realizar estas duas coisas nos ajudará enormemente o humor; não a ironia, nem o sarcasmo, mas o sorrir internamente. Isto impedirá que, em dado momento, nos sintamos ameaçados por esta manifestação da criança, permitindo que a relação deixe de ser tensa e sufocante e passe a ser algo mais relaxada, ajudando a mudar o ar para que entrem novos impulsos.

No âmbito do psicológico não é possível atuar seguindo regras rígidas. Necessitamos sempre atuar com mobilidade interior, idéias, força e condescendência, aspectos essenciais do mundo anímico. Existe um exercício "muito fácil", porém muito decisivo e em verdade muito difícil, que deveríamos ter sempre a mão. Eu o denomino "exercício da noite". Para fazê-lo, precisamos de poucos minutos: consiste em representar mentalmente antes de ir dormir, e de uma forma concreta, objetiva e "científica", alguma parte do corpo do nosso filho, filha ou aluno. Não interessam os sentimentos de simpatia ou antipatia em relação a forma da orelha ou da sobrancelha, porque se trata de desenvolver um processo científico-metodológico. Ficaremos muito impressionados com o pouco que conhecemos de nosso próprio filho, por quem tanto fazemos e que tanto nos faz sofrer, talvez até diariamente.

Tentamos então representar uma mínima coisa, por exemplo, a forma do lóbulo auricular, e no dia seguinte, sem que se note, estudamos as estruturas reais que aí se revelam. Necessitamos de um estudo de umas 3 semanas até que consigamos uma representação imaginativa da forma da orelha bem precisa, a tal ponto que sejamos capazes de desenhá-la. Uma vez que tenhamos conseguido isso, podemos dirigir nossa atenção ao estudo da mão, do olho ou da boca. É evidente que a relação com essa pessoa irá se modificar rapidamente. Uma vez que tenhamos sido capazes de superar sentimentos que interferiam, então será possível desenvolver nossa relação num outro plano, por assim dizer, no plano da "objetividade". Mediante este esforço volitivo, levado a cabo a cada noite, e, com interesse renovado a cada dia, aparecerá algo completamente novo, quer dizer, uma relação de eu para eu se abre à essência do outro e não ao seu comportamneto. Muito rapidamente, a não ser que as relações com a criança estiverem muito deterioradas há anos, esta se sentirá carregada, compreendida, e considerada, sem que se fale com ela a respeito de todas estas questões.

Buscar Ajuda
Porém, o que podemos fazer quando já apareceram, na relação com nossos jovens, falhas que vem se arrastando há muito tempo, tornado-se crônicas, convertendo-se em doença animíca? Freqüentemente notamos que, ainda que as relações sejam próximas, estas desenvolveram uma natureza dupla, como por exemplo: amor - ódio. Quer dizer, uma relação nociva, cheia de mal-entendidos, porém certamente cheia de nostalgia, que não se pode solucionar mesmo com os melhores esforços e conversações. Neste caso a única ajuda eficiente é quase sempre uma separação e, dependendo das circunstâncias, teremos que fazer isto buscando uma clínica, internato ou família, na qual, com compreensão e delicadeza, o jovem poderá curar as velhas feridas.

As crises podem aparecer devido a anos de exigências, por exemplo, quanto aos resultados escolares. Isto faz com que aos jovens se façam cada vez mais evidentes suas debilidades, aparecendo neles a sensação de incapacidade e de falta de sentido na vida. Quase sempre o jovem tenta equilibrar a dificuldade esforçando-se mais nas matérias em que tem mais facilidade. E isso normalmente não serve muito; por isso é muito importante investigar as causas exatas de semelhantes alterações, a fim de poder encontrar ou realizar a ajuda adequada. Muitas vezes as alterações de movimento, os assim chamados "danos cerebrais funcionais", costumam ser a causa de semelhantes crises. Aqui tampouco poderemos atuar utilizando determinados truques ou conversações, mas sim que tirando-lhe desta sobrecarga e fortalecendo-lhe em outros âmbitos. Quase sempre é conveniente separar o jovem dos pais e dos educadores a quem ele está acostumado. Com estas medidas poderemos reestabelecer o equilíbrio.

As doenças psíquicas, que muitas vezes aparecem na etapa juvenil, podem apresentar-se independentemente de condições externas. Freqüentemente encontram um fator desencadeante nas menores sobrecargas psíquicas ou corporais, necessitando-se de experiência e um treinamento especial, a fim de poder reconhecer estas tendências com vários anos de antecedência. As causas precisas, na maioria das vezes, não são deduzíveis tomando-se em conta somente o desenvolvimento, podendo inclusive ter raízes antes do nascimento e da concepção, como por exemplo, um problema herdado ou devido a uma estrutura especial do germen individual organizador.

Nestes casos é imprecindível a ajuda médica. Se, durante sua juventude, não se consegue superar essa crise, as doenças psíquicas serão, na maioria dos casos, determinantes para o resto da biografia daquela pessoa. Dependerá muito da visão combinada de pais e educadores, que se busque a tempo o conselho e a ajuda adequados, inclusive, às vezes, a custa de decisões dolorosas, a fim de evitar que estados doentios se arrastem por muitos anos.


Fonte:
"O papel da sociedade e dos adultos", Extrato Higiene Social nº 39, tradução de Elaine Tomás.
Continua no próximo número.
* Endogênicas: originadas no interior de, ou por fatores internos ( n.e.)
** Hedonismo: doutrina filosófica que faz do prazer o fim da vida ( n.e. )
Continuação A puberdade e suas crises (2a parte)

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