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A puberdade e suas crises
(1ª parte) A maturidade terrena significa
a possibilidade de que os objetos, as leis terrenas e os outros seres
humanos, se convertam para nós em algo familiar; o poder de nos
encontrar com eles no plano mental, no plano do sentir e da vontade. Por
ela se pode justificar o falar de maturidade para o encontro, pois o jovem,
graças a esse novo passo, alcança o amor no sentido mais
amplo, para amar o mundo terreno. Porém, adquire também
a capacidade de se encontrar com esse mundo terreno atuando: criando,
dando forma ou destruindo. Nas garotas a maturidade aparece ainda mais como algo desconexo. O corpo, de repente, assume forma curvilínea e se arredonda. Aparece uma modulação diferente no tom de voz, ela desce o valor de uma terceira. Aparece a primeira menstruação. Animicamente, ao contrário dos garotos, as garotas se tornam mais abertas, comunicativas e 'à vontade' ( ao menos diante de seus companheiros de idade). Ali, onde a natureza os abandonou, tratam de ampliá-la um pouco, por exemplo, através de uma nuvem de fumo, de perfume, de cheiro ( corporal, por exemplo ). A moda se torna importante e o jovem veste-se de forma exótica, para dar um toque especial único e estiliza o penteado do cabelo. Ao mesmo tempo isto é uma espécie de disfarce para não ter que se mostrar de uma forma tão pessoal. O ânimo se alterna entre ações disparatadas e desatinadas com estados de desalento e profunda tristeza. As ações cheias de força se alternam com estados de letargia. É cuidadoso ou descuidado em relação a todo exterior. Esta é em geral uma imagem externa que muitas vezes dá lugar a confusões.
Porém a nova sensação de independência, de auto-suficiência, é algo que tem muitas facetas e contradições. Se por um lado o jovem sente interiormente
a liberdade, a liberação de todos os vínculos, por
outro lado começa a se ver sozinho diante da vida, deixando de
ser levado e dirigido. Estas profundas experiências anímicas
completamente novas em geral produzem um choque como acontece com o recém-nascido
no corte do cordão umbilical e a primeira inspiração.
Esta perturbação interna se parece a uma tormenta, a uma chuva de granizo muito forte ou também a um fogo devastador. Quem já teve a oportunidade de vivenciar a força ígnea de um palheiro queimando, o calor incrível, a energia e a força destrutiva que emanam dele poderá recordar um pouco e, talvez, compreender o que acontece no interior da alma do adolescente. Feitos semelhantes com destruição do antigo e construção do novo fazem parte do percurso dramático, crítico, de um processo de transformação na busca das barreiras que cada experiência oferece, na busca das próprias dimensões da alma. Esta se sente atraída pelos encontros com o homem e o mundo, ou também se lança de volta contra si mesma. É como a alternância respiratória entre os gestos de simpatia e antipatia . Esses grandes movimentos da alma são como os pratos de uma balança neste momento de desenvolvimento. Ambas são capacidades básicas do encontro tal como observamos, por exemplo, ao nos expressarmos e ao escutarmos, na opinião e na reflexão, no falar e na contemplação, ou seja, são gestos primordiais de um encontro. Também no interior da alma vivem as necessidades da entrega ao mundo e do retorno a si mesmo. Os jovens devem aprender a equilibrar estes gestos tão necessários e vigorosos no decorrer dos anos se desejam manter-se psiquicamente harmoniosos. Falamos então da capacidade de oscilação e estabilidade anímica. Só assim é que poderá aparecer pela primeira vez uma verdadeira capacidade de vivenciar acontecimentos por inteiro. Se não aparecem aspectos dramáticos no desenvolvimento do adolescente, nem vislumbres de 'crises', isso poderá constituir um aviso de alguma doença incipiente. Existem perigos: um deles é a necessidade de se entregar ao mundo dos 'outros', conduzindo a uma ausência de barreiras, a um desejo desenfreado de prazer, de deleites e gozos que pode terminar com uma dependência doentia. O outro perigo consiste em se retirar do mundo com as novas capacidades adquiridas de reflexão e de crítica evitando assim os encontros e as experiências, ou se entregando a uma atitude destrutiva ou rancorosa. A alma experimenta em ambos os casos uma sensibilidade patológica no que se refere a impressões externas,ou somente pelos sentimentos próprios.
Os movimentos anímicos de simpatia e antipatia são salientados de forma diferente entre meninos e meninas jovens. Nos meninos a vivência anímica em geral é mais estreita, as experiências emocionais mais ocultas, pois o jovem não gosta de revelar o anímico. A incapacidade de aproximação, a reserva, o sentimento de superioridade são virtudes, mas também são ocultas. Por outro lado não existe nada mais vulnerável e sensível, nada que seja mais doentio, que a alma de um jovem. Se parece a um caranguejo quando muda a carapaça. A tendência à mudanças constantes até o isolamento, domina nos garotos. Nas meninas, ao contrário,
se desenvolve muito mais freqüentemente o mundo das sensações
e dos sentimentos. O comportamento é mais seguro, aparece a tendência
a se comunicar, à união, ao encontro com o mundo, a se perder
na vivência do contato, à exigir até a provocação.
A sensibilidade anímica é, em geral, ao contrário
dos meninos, menor.
A constituição anímica
cria um componente de desenvolvimento adicional. A forma como o anímico
está ancorado no corpo e nas suas forças vitais denominamos
temperamento. Nesta fase, por exemplo, atua um temperamento melancólico
o qual faz com que a vida anímica em fase de despertar se concentre
mais fortemente para dentro, o que pode colocar em perigo a alma juvenil
nestes tempos de grandes mudanças, podendo ser conduzida a um encapsulamento
e isolamento absoluto com tendência auto-destrutiva. Por outro lado
podemos nos encontrar com outra tendência, a de se perder a intensidade
anímica, por exemplo, voltando-se mais para o exterior. Esta tendência
se vê potencializada no temperamento sanguíneo. Na alma juvenil
feminina assim conformada, este comportamento pode conduzir a uma necessidade
irrefreável de mudanças e notoriedade, a não suportar
estar só. As reações aos estímulos e às
sugestões são excessivas, irrefreáveis até
o ponto de chegar a estados excepcionais de histeria e de grande intranqüilidade
interna. Temos ainda que contemplar um outro processo muito mais escondido que a maturidade terrena: como é que será percebido o desenvolvimento do auto-conhecimento até então mantido em estado germinal ( por assim dizer, pela "sombra do eu") ? A possibilidade para nos encontrarmos com o mundo terreno significa também a disposição para nos despedir do mundo espiritual, que manteve seu profundo "apoio" ao desenvolvimento do ser durante a infância. A criança deveria vivenciar, por meio de seus pais, a segurança, a estabilidade, itens que são considerados como a continuidade da existência paterno-divina. Devido à mudança de desenvolvimento em direção à maturidade terrena, aparece a dúvida diante do duradouro, todos se sentem isolados, dependentes de si mesmos e "abandonados pela mão divina". Esta despedida é freqüentemente descrita sobretudo pelos meninos, através de afirmações do tipo: "me sinto isolado, como se houvessem me abandonado" ou "sinto que já não me compreeendem"ou ainda "é como se houvesse sobre mim uma placa de concreto que não consigo ultrapassar" e, por último, "duvido sobre o sentido da vida".
A enorme unilateralidade dessa experiência, seja pela perda das forças religiosas que até então acompanhavam a criança, seja pelo descobrimento do mundo material de aparências suscetíveis de serem manejadas, esconde novamente uma tendência doentia. Assim, o sentimento de perda junto com o sentimento de resignação e de agressividade podem ser determinantes para todos os passos vitais seguintes, o que pode conduzir a grandes quadros patológicos denominados depressões endogênicas*, que são acompanhadas de uma completa falta de iniciativa e de ameaça de suicídio. Nos casos de predomínio
de sentimento de descoberta, de sede de vida, de avidez imperiosa por
experimentar de forma delirante e embriagadora o mundo, esta instabilidade
e volubilidade podem ser vistas aumentadas até um estado psicótico,
até ao uso abusivo de substâncias entorpecentes, o que pode
desembocar em estado de psicose esquisofrênica. "Ambas tendências trazem em si o perigo do fanatismo e ambas podem desembocar na dependência". Ao contemplar estas duas tendências de perto vemos que tanto uma como a outra passam longe das verdadeiras necessidades dos jovens. Podem conduzir o eu em formação ( princípio espiritual individual conformador de um centro ) a não aprender a dominar a alma, não conseguindo assim manter um equilíbrio são. Desta forma cairá desgarrado em um turbilhão de influências que o impedirão de alcançar a soberania. O transcorrer da fase da juventude pode ser superada e vencida com uma outra crise, chegando-se a um equilíbrio individual entre o trabalho e o pensamento, entre a experimentação e os costumes fixos. Em geral uma vida desenfreada se "cura"mais tarde com uma tendência a adquirir costumes fixos e um leque bem limitado de interesses. Porém também em estágios mais avançados da adolescência, poderá se desenvolver doenças relacionadas a incertezas interiores como neuroses nas quais o homem cai em forma cada vez mais profunda. Freqüentemente, estes comportamentos não representam uma unilateralidade, senão que, igual a um pêndulo, oscila de um estado anímico ao outro. Surge uma nostalgia como uma ilusão que não se chega a alcançar jamais. Desta sensação surge a dor propriamente sentida e a auto-compaixão, o que de novo desencadeia a queda em outra ilusão. Assim se chega também à alterações anímicas neuróticas, à dúvida anímica de que já não se pode mais encontrar o centro. No caso em que a pessoa tenha um déficit em sua capacidade de vivência anímica, padecerá de um sofrimento sem trégua. Este indivíduo experimenta
a prisão de seu sofrimento, a violência da vida, a superficialidade
e a falta de alimento anímico-espiritual, o que provoca nele uma
tensão insuportável ou a sensação de um profundo
vazio. A reação pode se converter em uma tentativa de ruptura
ou evasão ou no acobertamento com sensações e vivências
imaginárias e aparentes.
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